quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Esboço sobre Anticristo


Lars von Trier é um provocador. A começar pelo ‘von’ acrescido ao nome original Lars Trier, como a conferir nobreza germânica ao diretor dinamarquês. Em seu novo filme, a provocação tem início no título (Anticristo) e se estende por cenas profundamente violentas, que vão desde a perfuração de uma perna com uma broca até a mutilação genital da personagem feminina.

Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg interpretam um casal que, depois da morte do filho, muda-se para uma casa na floresta. A iniciativa é do marido, com a intenção de fazer com que sua esposa, visivelmente abalada, supere o trauma. A cena inicial, que mostra o deslocamento do filho até a janela (de onde saltará e morrerá) enquanto, no quarto do casal, os pais fazem sexo, é de beleza singular. Filmada em preto e branco e em ultra-slow-motion, a sequência tem por trilha sonora o trecho “Lascia ch'io pianga” da ópera “Rinaldo”, do compositor barroco Georg Friedrich Händel, e é artisticamente muito competente.

A esse pequeno prólogo segue o corpo do filme, dividido em três capítulos (no que o diretor retoma a estruturação de outros filmes, como Ondas do Destino [1996], Dogville [2003] e Manderlay [2005]). Enquanto o personagem de Dafoe tenta, como terapeuta, identificar e tratar o quadro depressivo de sua esposa, os conflitos se proliferam, culminando numa perseguição da mulher ao marido que incorpora momentos repugnantes de violência.

Embora pareça exagerada a postura do jornalista inglês que, no festival de Cannes deste ano, exigiu veementemente que Lars von Trier justificasse o filme (o que, como esperado, o diretor negou-se a fazer), é verdade que Anticristo, talvez pela gratuidade da violência ou pelo arrastar sofrido da trama, está longe das obras-primas do diretor, que, nos últimos treze anos, emplacou pérolas como Ondas do Destino [1996], Dançando no Escuro [2000], As Cinco Obstruções [2003], Dogville [2003], Manderlay [2005] e até o mais recente O Grande Chefe [2006], comédia que, embora bastante honesta, está um degrau abaixo dos demais. Isso sem contar Os Idiotas [1998], um de seus filmes mais conhecidos e que, se tem qualidade questionável, tem também inegável importância dentro do movimento dinamarquês Dogme 95, de projeção internacional.

Von Trier revela que realizou Anticristo como forma de combater um período recente de depressão. É de se discutir a validade de um filme levado a cabo com intenções individuais (lembremos da cena de Domicílo Conjugal [1970], de Truffaut, em que Christine alerta Antoine Doinel para o fato de que uma obra de arte, se usada para acerto de contas, deixa de ser arte), mas é mais uma vez exagerado enxergar o filme como prova de uma tendência misógina de Lars von Trier. Jorge Coli, em crítica recentemente publicada pelo caderno Mais da Folha de S. Paulo, contesta esses posicionamentos, ao fazer referência a episódios anteriores ao desenrolar da trama que são retomados pelo casal: “a mulher se retirara numa casa isolada para escrever uma tese sobre assassinatos de mulheres na história. O tema é feminista.” Mesmo que não fosse, seria por demais simplista supor que a postura de um personagem reflita a de seu criador.

Defender um ponto de vista com que não concorda é (ele mesmo já o revelou) um dos exercícios que mais agrada ao diretor dinamarquês. Nada mais adequado ao tom de ironia e de provocação que aplica a seus filmes. Antes de se voltar com ira para Von Trier, o que não se justificaria mesmo se se tratasse de uma peça detestável, o mais correto parece ser admitir Anticristo como um tropeço em uma filmografia sólida e diversa, que não se prende a modelos repetidos e arrisca penetrar os mais diferentes gêneros narrativos.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Balanço


Que primeiro se clique na foto — amplie-se-a, que pequena é quase crime. É do companheiro A. Toresan e tomo-a como profundamente metalinguística.


***


Em baixo, à direita, caprixosamente rente ao quadro, a placa dá o anúnio (mas dá-o depois, impossível repará-la de prima): ESPLANADA — piso plano, a se estender até onde buscam os olhos. Entender a foto é questão de direção; é nisso que nela abunda. Direcionam-se os carros (aqui não importa se parados), os fios e as faixas das pistas. Rumam assustadoramente para o observador, que, embora seguro (por altivo), sente-se afrontado. Há no entanto o que jogue do lado dos que veem: precisamente as luzes dos postes, os pedestres e as faixas destes, isso tudo a concorrer perpendicularmente com as forças iniciais. Desse conflito de direções — balanço. Equilíbrio que vem do puxar-apertar dos movimentos. Mas atenção: no meio do equilibrado — desaprumo. Forças verticais (carro, fio, faixa), forças horizontais (luz, pedestre, faixa), aparentemente inabaladas em seu rigor e unidirecionalidade, são avassaladoramente sacudidas. Fazem-nas tropicar as sombras. Explico: traz o topo da foto sombras quase retas; desce-se um pouco e vê-se que se torcem, rodopiam a postarem-se diagonais. Alerta dois: não observam as sombras as faixas de pedestre; ora revelam-nas, ora tentam-nas cobrir (e aqui sugerem formidavelmente um filme fotográfico). Perda de padrão, rasgos — desfaz-se o plano. É assustador, mas atentem: aqui de cima, olhando assim em macro, andar contra-sobre os carros é subir a Glicério de escadas.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Que volte



Não costumo fazê-lo, mas eis a exceção. É com tristeza que reproduzo o seguinte e-mail que me acaba de chegar na caixa postal, dando conta do fechamento do valente Cine Paradiso, aqui de Campinas, encravado numa galeria da rua Barão de Jaguara. Enquanto não volte, pois há-de o fazer, restarão na lembrança, tão ou mais fortes que as imagens, o cheiro das poltronas de couro, o banheiro apertadinho, as balas de goma, a vitrine com sonhos-de-valsa, a imagem a ajustar-se em tela e o penetrar mágico pelas cortinas de veludo. Dos filmes, a gente corre atrás.

Tudo o que um sonho precisa, é de alguém que acredite que ele possa ser realizado.

Acreditamos no sonho de fazer um cinema de qualidade, conteúdo e sentimento durante esses 26 anos de existência.
Por sonhos em comum, o Paradiso nasceu...
Pelo despedaço dele, se finda.

Agradecemos de coração à todos os atores e coadjuvantes nesse ‘longa metragem’ de muitas esperanças e ânsias, mas de produção precária e recursos limitados.
Aos telespectadores, nosso muitíssimo obrigado!

Esperamos ressurgir como a fênix, em breve!

Após 26 anos de luta, encerraremos nossas atividades.

A charge é de Bira Dantas.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Hoje, abençoadamente 26 de outubro



Dentre todos aqueles que honram o P a iniciar nome, acredito ser cá este PQP o mais dinamarquês dos blogs brasileiros, sendo decerto o segundo, terceiro ou no máximo quarto em caso de exagerar-se a afirmação. É-o no entanto pela simples razão de rarearem-se os concorrentes, resultado da especificidade do quesito.

Vasculhando aqui as sete ou oito folhas que trouxe anotadas, maioria das quais com curiosidades do tipo “patos aqui não fazem quá-quá, mas rap-rap” (de interesse indiscutível, embora inferior ao que segue), tomaram-me atenção em especial duas, onde fiz notas sobre algumas expressões do cativante dinamarquês. Apresento-as, dando, depois do original, o significado literal e, em seguida, a expressão brasileira aproximada.


/1/ “ingen ko på isen”
- Nenhuma vaca no gelo
- Sem problemas

/2/ “at male fanden på væggen”
- Pintar o diabo na parede
- Fazer tempestade em copo d’água

/3/ “hele ud ved syvende kartoffel række”
- Lá perto da sétima fileira de batatas
- Lá onde Judas perdeu as botas


A mais assustadoramente curiosa, contudo, é a que indica ser “Tycho Brahes dag” [Dia de Tycho Brahe] o mesmo que um dia de azar, em que nada, por nada, funciona. A explicação não sei se se pode confiar, mas narra episódio esse em que, a pedido de um rei, já há bons séculos, teria o célebre astrônomo divulgado uma lista de possíveis dias de azar. Em todos eles, portanto, deveria dobrar-se a atenção, sob o risco de vê-los encaminharem-se a desfecho nada agradável. Não será desrespeito admitir que, zeloso, pecou pelo excesso, de modo que, à época, o cidadão que lhe tomasse a sério decerto se veria obrigado a passar 8,8% do ano a olhar bem os passos que dava, atormentado pela possibilidade iminente de catástrofe.


Prestação de serviço:
Os dias de Tycho Brahe:

Janeiro: 1, 2, 3, 4, 6, 11, 12
Fevereiro: 11, 17, 18
Março: 1, 4, 14, 16
Abril: 10, 17, 18
Maio: 7, 8
Junho: 6
Julho: 17, 18
Agosto: 20, 21
Setembro: 8, 20
Outubro: 6
Novembro: 6, 20
Dezembro: 6, 11, 18

domingo, 18 de outubro de 2009

Poesia serve pra isso



Philippe Petit é um poeta: cada passo sobre a corda, uma palavra bem posta; cada gesto, um traço, um ponto. Estrofe única, andar de limite. Uma palavra a mais — queda.


"Trabalhando sob as maiores limitações possíveis, sobre um palco cuja largura não passa de poucos centímetros, o papel do equilibrista é criar uma sensação de liberdade ilimitada. Malabarista, dançarino, acrobata, ele realiza no alto o que outros homens se contentam em realizar no chão. O desejo é ao mesmo tempo forçado e perfeitamente natural e sua atração, afinal, está em sua total inutilidade. Nenhuma arte, me parece, enfatiza tão claramente o profundo impulso estético dentro de todos nós. Sempre que vemos um equilibrista andar sobre uma corda, parte de nós está lá em cima com ele. Ao contrário dos espetáculos nas outras artes, a experiência da corda bamba é direta, imediata, simples e não requer qualquer explicação. A arte é a coisa em si, uma vida em seu delineamento mais nu."

a inutili
dade da p
oesia a i
nutilidad
e da poes
ia a inut
ilidade d
a poesiaa
inutilida
de da poe
sia a inu
til idade
da .poesi
a a inuti
l idade d
a .poesia
ainutilid
ade da po
esia a in
utilidade
da poesia


"A arte (a poesia é arte) é a única chance que o homem tem de vivenciar a experiência de um mundo da liberdade, além da necessidade. As utopias, afinal de contas, são, sobretudo, obras de arte. E obras de arte são rebeldias. A rebeldia é um bem absoluto. Sua manifestação na linguagem chamamos poesia, inestimável inutensílio."

Rebelde, pé no cabo. De baixo, a mirar alto o poeta bambo, ponto somente, saquemos já os chapéus. Dobra-se o joelho, braço fecha em reverência: aplauso, que está agora a passar — solta, certa, inútil.

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O haikai do início é de Millôr Fernandes; a foto, de sei lá quem, retrata Philippe Petit; a primeira citação é de Paul Auster, do ensaio "Na corda bamba", que está no livro A arte da fome; o poema é de Augusto de Campos, do livro Não Poemas; a citação última, por fim, de Paulo Leminski, dos Ensaios e Anseios Crípticos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Em defesa da língua




Então Mario Vargas Llosa é defensor do romance. Acho ótimo, li-o neste mês na Piauí [Em defesa do Romance, p.64], em artigo parte de livro que virá aí a ser publicado. Defende-os, e é bom que o faça, tanta é a força que anda a pressionar pra fora da vida a literatura, mas acontece que o faz aos tropeções, deixando aí escapulir barbaridade atrás de barbaridade sobre a língua e a escrita. Poetas (e para os romancistas a instrução cabe com ajustes) fazem beleza com linguagem, disse Leminski, se aqui não me engana a memória. Mexem com palavras, mas não é sempre que delas sabem tudo, tão simplesmente como o artista de circo, perito no lançar e catar de malabares, pouco talvez possa descrever seus atos em termos de lançamentos parabólicos, ou quer lá como se os chame na física.

Decorre daí que Llosa, no querer fazer defesa da literatura, sai desgovernado à cata de argumentos, topando em erros: posta-se etnocêntrico, intolerante e supervaloriza a escrita. O escritor chuta pra baixo a oralidade, desconsiderando inclusive a existência de uma literatura de tradição oral, e nisso alinha-se a pensamento comum entre os donos do poder: o oral não dá conta do abstrato, é rasteiro e excessivamente limitado. Mito, mito, mito. É com base em premissas mal-das-pernas como essas que Llosa traça o panorama de uma sociedade em que a literatura não existisse:
“Uma comunidade sem literatura escrita se exprime com menos precisão, riqueza de nuances e clareza do que outra cujo instrumento principal de comunicação, a palavra, foi cultivado e aperfeiçoado graças aos textos literários. Uma humanidade sem romances, não contaminada pela literatura, se pareceria com uma comunidade de tartamudos e afásicos, atormentada por problemas terríveis de comunicação causados por uma linguagem ordinária e rudimentar”.

E com isso vai além, descrevendo o tal mundo sem literatura como “incivilizado, bárbaro, órfão de sensibilidade e pobre de palavra, ignorante e grave” e aproximando-o de “pequenas comunidades mágico-religiosas que vivem à margem da modernidade na América Latina, na Oceania e na África”, no que liberta seu olhar preconceituoso. Diz-lhe incivilizada, mas chama-a de civilização, e dá continuidade à patacoada: “Nessa civilização ágrafa, com um léxico liliputiano, em que talvez os grunhidos e a gesticulação simiesca prevalecessem sobre as palavras, não existiriam certos adjetivos formados a partir das criações literárias: quixotesco, kafkiano, pantagruélico, rocambolesco, orwelliano, sádico e masoquista, entre muitos outros”. Parece-me inocente (lembrasse o nome de um artista naïf, adjetivaria-o) que a simples existência de um “borgeano” represente tamanho ganho à linguagem. Borges é ganho à literatura, nem se diga, mas por coisas muito outras.

Llosa erra. Com boa intenção, o que não lhe concede álibi. Toma a escrita como positiva por si própria, tratando analfabetismo por doença e desmerecendo a oralidade. O oral, é bom que se ponha claro, não está nem acima nem abaixo do escrito; são, sim, distintos e, longe de se postarem opostos e estanques, misturam-se, interpenetram-se, confundem-se.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Um brinde

De já algum tempo recebo quase todo santo dia, por e-mail, os incríveis (exclamação) arquivos do jornalista João Antônio Buhrer Almeida. Desconfio (e aqui borgeanamente), de fato, que sejam infinitos. A última leva temática trouxe de presente tesouros antigos do fantástico Millôr Fernandes. Coisa vinha que não parava de ser melhor que a outra. Este haikai, em particular, saído numa edição da Veja de março de 1975 (e portanto lá bem pra trás), fisgou-me pela simplicidade grandiosa. Reproduzo-o (e aumenta-se-o num clique), anexando-lhe os melhores votos a estes dois: Millôr e João.



quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Legislação




Configura crime inafiançável — assim postularia o texto da lei, fosse-me dada a autonomia de criá-la — a utilização ou incitação ao uso, em quaisquer circunstâncias ou quantidades, do açúcar no café. E seguiria então o texto (descuido-me agora da forma), a versar sobre exceções (poucas) e particularidades, até que surgisse o momento de se especificarem os agravantes. E aí não teria titubeio em dizer que haveriam de padecer das penas mais severas aqueles que cometessem (ou deixassem cometer, omitindo-se) este que é um dos crimes mais ultrajantes à honra do café: pô-lo já adoçado dentro da garrafa, como a desdenhar dos cidadãos de bem: “é isso ou nada”.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Vizinho de visão




Moram pegado e não é que se lhes pronuncie o instinto afetivo; o terreno é curto e exige assim a falta de espaço que se amontoem. Atraiu-me à vizinhança a altivez daquele que se pode presumir como o prédio mais pontudo do bairro. Não foi difícil bater à morada do Sr. Swedenborg, que a um primeiro momento lançou-me um olhar angulado, mas logo curvou-se em cumprimento, pedindo-me que sentasse.

Não que me não tivesse agradado a visita, mas passou-se que por aí alguns meses andei distante do quarteirão. Bastou que me telefonasse o senhor Calvino a dizer que me sentiam a falta para que tomasse de volta em cuca a ideia de uma visita. Poupei-me tempo e acabei de encontro marcado com outros dois. Desci os vários andares que separam o chão do Sr. Calvino e, já agora na rua, rumei à de trás, onde esperava-me impaciente o seguinte anfitrião. O Sr. Brecht deixou-me à vontade; de forma alguma me importunaram suas histórias, que tinham algo de humor pralém de reflexo. Eram ainda 11:00, mas confundi-me (pensei 16:30), de tal que me restou estabanar-me à saída em direção ao edifício da frente. Já em nova companhia, tornei à biblioteca, onde foi o senhor Henri que, dominado pelo efeito do absinto, fez-me foi muito é rir.

Bebe-se e com isso sai-se a prometer o que não deve-se. Assim que chegou-me hoje um e-mail a me lembrar que, inda essa semana, marquei de juntar-me aos senhores Juarroz e Kraus. Não me desespera o compromisso, bem ao contrário: parece-me tratar-se de sujeitos assim de papo leve, tranquilo e pouco extenso, com o que se garantirá em poucas horas meu bem-estar no fim de semana que aponta.

Aos que nem desconfiam da localização do arrabalde, vou-me logo a informar que será inútil correr a guias ou mapas. Encontram-se as casas, bem como seus singelos moradores, tão somente nas largas avenidas da cuca de Gonçalo M. Tavares. O jovem escritor português, de criatividade das maiores e precisa habilidade aforística, vem encantando a mim, é verdade, mas não só. Suas frasezinhas curtas e de carcaça inofensiva passaram lábia no nosso todo-poderoso mestre Saramago, que foi o primeiro a defini-lo bem e com um só ponto final, dizendo-lhe “armado de uma imaginação totalmente incomum e rompendo todos os laços com os dados do imaginário corrente, além de ser dono de uma linguagem muito própria, em que a ousadia vai de braço dado com a vernaculidade, de tal maneira que não será exagero dizer, sem qualquer desprimor para os excelentes romancistas jovens de cujo talento desfrutamos actualmente, que na produção novelesca nacional há um antes e um depois de Gonçalo M. Tavares”.

domingo, 20 de setembro de 2009

PQP, dos brasileiros


Honra mesmo à Equipe PQP foi sair-se na Revista Brasileiros desse cá mês de setembro. Tendo ainda Tom Zé em capa, valorizou-se o feito dos nossos, que levam os parabéns. Trata-se de uma sugestão cultural, justamente a do roteiro Curitiba, de Leminski, que tanto por cá se fez presente nos últimos meses.

domingo, 13 de setembro de 2009

Fiat Lux!




Vejam (ajudará um clique de aumento) com detenção e vão julgar por demais plano o contorno da baqueta, acharão talvez mal posto ali o tambor, como não passasse com o resto do que se passa, e tomarão-se de susto ao notar a imperfeição meticulosa que separa os finos braços da criança do fundo em que se acha. Um boneco, pensarão, botando logo tese abaixo ao topar com os olhos iniciais, excessivamente grandes, azuis e redondamente hipnóticos. Quase tudo é assim em Loretta Lux, alemãzinha essa de Dresden capaz de sacar peraltice toda de uma criança. Põe-nas numa serenidade de assustar. A tensão real-irreal passa pros miúdos algo de ofensivo-inofensivo, e bem daí surge o medo. Tira Loretta fotos (usa de modelo filhos de amigos) e depois vai-lhes botando outro fundo, limando dali o que não presta, deixando ali os pequenos com nada que lhes atrapalhe a calma.




domingo, 6 de setembro de 2009

Aos de segunda

É domingo e se de uma coisa podemos ter certeza é de que virá amanhã o que se convencionou chamar segunda-feira. E haverá (entramos aí já no campo do possível) talvez quem trate de pisar logo cedo em terreno esse do PQP. Bem aí é que mora o motivo de em mesmo um domingo pintar por cá a série Mandagslæser. Explico: trata-se de série de desenhos da lavra de Simon Bækdahl Nielsen, que tem sido publicada no site Oplysningskontoret. Chama-se a série o seguinte: Leitor de Segunda. Ora, bem certo que em português leva a tradução pontinha ambígua, como fosse o leitor desprezível, de mesmo segunda linha. Não passa, contudo, de um leitor de segunda-feira (seja lá o que sugira o traço), aqui hoje homenageado, e também em representação a todos que por cá se arriscam.






quinta-feira, 3 de setembro de 2009

postquampositus


Carlo Egger (é de se perguntar se gosta-se mesmo Carolus) é autor de obra de peso: são 728 as páginas da última edição de seu Lexicon Recentis Latinitatis, em que leva a cabo o latinista tarefa mesmo das maiores: pôr o Vaticano a poder falar das coisas do mundo — em latim. Desconhece-se o eventual grau de interesse que tenham os religiosos por atrações mundanas como, por exemplo, os embates de basquete. Confirmada fosse a afeição, é certo que não hesitariam, chegados segunda à labuta, em dar pitaco nas cestaças do fim de semana. Que intenso o follis canistrique ludus!

Mas que não se apressem na volta à casa (as tem?) — esbaforidos por alguma comida à televisão, trajando brevissimae bracae (assim diz-se shorts), correm o risco de pisar ali um tanto mais fundo no acelerador. Algumas semanas se passarão e chegará aos beatos a notificação: foste visto pelo radioelectricum instrumentum detectorium. Cinco pontos na carteira.

Vão às compras por cosméticos, é certo que, assomados à rua, ouvir-se-á ao longe o grito a pedir que pare o táxi: “autocinetum meritorium!”. Parará, abrir-se-á à subida e logo-logo estarão de pé fincado à farmácia: veja-me aí um capitilavium — como se vaidosos — para cabelos oleosos. Ao combate dos maus odores ajudarão com um foetoris delumentum.

Feito o trato, será momento agora de tornar à casa. Fosse non-sense a história, é capaz que surpreendessem-se por ataque esse de kamikaze — voluntarius sui interemptor —, ou avistassem pairar ao longe (e dariam por ilusão, herética a possibilidade) nave essa cheinha de extraterrestres — está lá a passar a res inexplicata volans.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Leite derramado

A Dinamarca, terra do Lego e dos biscoitos amanteigados, pouco pode se orgulhar de muita coisa. Fiordes há, mas o certo é que, mesmo aconchegantes, não impressionam quando postos ao lado dos noruegueses, tão mais grandiosos e imponentes. Não há na Dinamarca ponto que esteja a mais de 200m acima do nível do mar. Por alguns dias, porém, lá no agora já longe 1986, puderam os dinamarqueses como que se postar no topo, senhores de si.

Pode-se chamar pedregulhoso o grupo em que se viu a Dinamarca ao chegar no México para a disputa da Copa daquele ano. Viria primeiro a Escócia (única presa fácil), como que a preparar de gradativo o terreno por vir: uruguaios, celestes que só, e a ocidentalíssima Alemanha, rival de preferência. Derrotas certas, ia sair a pensar a maioria. Mas dois havia que surgissem de surpresa:

Michael Laudrup, o irmão mais velho

Preben Elkjær, futebolista e fumante

E tomaram todos desprevenidos. O 1 a 0 contra a Escócia até que saiu qual esperado; a desordem reservaram os dinamarqueses para o segundo jogo. Diante dos uruguaios, meteram-lhes impiedosos 6 a 1. A justa metade dos tentos escandinavos coube aos pés de Elkjær, cujo fôlego pulmonar faria desafiar as mais acuradas estatísticas paulistas. Quando mais parecia não caber, veio a Alemanha, a quem, como aos de antes, despachou a trupe dinamarquesa com um rotundo 2 a 0.


Tomou-se a pequena Dinamarca de euforia. À maquinaria futebolística, pareciam os campos planos do México retomar o relevo da terra natal, donde saía a força para passar atropelo nos adversários. Surgiu até música a cantar o feito: Michael Bruun na melodia, cabendo a letra à dupla Jarl Friis-Mikkelsen e H. Bødtcher.


Qual os dinamarqueses pisando solo mexicano, envolto em despretensão, apresenta o PQP tradução ao português, a fim de que também os lusófonos batam contato com o singular episódio da história do esporte dinamarquês. Vem a letra cheia de referências ao escritor e ídolo nacional Hans Christian Andersen — em maioria, descabidas, mas que passam como momentâneo ufanismo.

Som den lille grimme ælling
blir man rød og hvid på tælling
svæver som de hvide svaner
på alverdens udebaner.

Vi går frem mod fodboldstater
som de tapre tinsoldater
som den lille, store Claus
klapper vi med hatten, DAVS!

Vi er røde, vi er hvide
Vi står sammen, side om side.
Vi er røde, vi er hvide
Vi står sammen, side om side.

Selv Olé må luk´ sit øje
når han ser en rød-hvid trøje.
Vi må kæmpe for det land,
der er boldens H.C. And.

Moder Danmark elsker alle
danske drenge, der kan knalde
bolden ud til verdens skue,
som en lille ny havfrue.

Vi er røde, vi er hvide
Vi står sammen, side om side.
Vi er røde, vi er hvide
Vi står sammen, side om side.

Vi' humør og støvlekrudt
Vi er nederlag forbudt
Vi' kulør og glade fans
Vi' de danske roligans
(2X)

Vi er røde, vi er hvide
Vi står sammen, side om side.
Vi er røde, vi er hvide
Vi står sammen, side om side.

.......... Como o pequeno patinho feio
pomos no placar branco e vermelho
flutuando como gansos brancos
em todo o mundo, todos os campos.

Avançamos contra os times do mundo
como os bravos soldadinhos de chumbo
como o pequeno e o grande Nicolau
Batemos com nosso chapéu — OLÁ!

Somos rubros, somos brancos
Lado a lado nós estamos.
Somos rubros, somos brancos
Lado a lado nós estamos.

Até o ‘olé’ cala na torcida
com um traje alvirrubro à vista
Vamos lutar pelos compatriotas,
que são o H. C. Andersen da bola.

A mãe Dinamarca ama todos
seus garotos, que aos olhos do povo
sabem bater bola com destreza,
como uma nova pequena sereia

Somos rubros, somos brancos
Lado a lado nós estamos.
Somos rubros, somos brancos
Lado a lado nós estamos.

Somos animados e ofensivos
De perder estamos proibidos
Torcedores coloridos e alegres
Somos os roligans* dinamarqueses
(2X)

Somos rubros, somos brancos
Lado a lado nós estamos.
Somos rubros, somos brancos
Lado a lado nós estamos.


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* Fui incapaz de traduzir roligans. A palavra remete a hooligans, torcedores animados e violentos. No caso, contudo, a referência é apenas à animação, já que rolig, em dinamarquês, é o adjetivo para "calmo", "tranquilo".


De nada, vai-se às vezes a tudo, para outras vezes com mesmo ímpeto voltar ao nada. Desconsidera-se o extremismo e tem-se resumo do que se deu com a Dinamarca para além da primeira fase. Era insignificante, passou a badalada e assim ficou até os 33 minutos das oitavas-de-final diante da Espanha. De pênalti, Jesper Olsen botou vermelho e branco à frente. Foi-se então o branco perdendo o brilho, encardiu-se, partiu ao amarelado e, já de cor nova, brilhou de novo: Dinamarca 1 X 5 Espanha.

domingo, 23 de agosto de 2009

Quem?




Aponta pronde? Deus que não. Roga por água, passou-se por lá redonda bunda? Improvável. Aponta talvez pra longe, pra daqui uns meses, pra seja lá quem escolheu. E atenção à careca — reflete, brilha. Terá sido ele quem escolheu Marcelino Freire?


Lourenço Mutarelli. Então ele! Olha o bolso aberto. Está frouxo. Conteúdo? Incerto. Provável não ser garrafinha essa de metal. Aliás, onde ela? Bolso da calça, atrás ali do pé? Toma água? Que livros são?


Já não é esse outro? Capa branca (luz demais), lombada preta. Dos quatro pés de tênis só brilham dois: brancos, ao fundo. Sobe a calça cinza — olha ali o microfone a se equilibrar entre pança e perna. Tem barba o sujeito. Quem? Aquino (Marçal).


Aí sim de perto. Vê só que nada de branco no tênis. Amarelado — pós-branco? Atrás um focinho a focinhar. Que fareja? Olha lá, ali bem à esquerda. Parte de pé, metade de microfone. Sabemos já de quem — passado. Mas, Marçal, quem cá te trouxe?


Flor em vestido. É preto o fundo. Lê bem. Três águas — uma cheia, uma quase, uma não. Lá pra trás, sol. Luz amarela. Harmônico conjunto. Quem? Cláudia. Taí, Tajes o sobrenome. Mas ora-ora, quem cá te trouxe? Aí é história.

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Por ocasião do projeto Versões (muito bem comandado pela Heloísa Pisani), cuja segunda edição se deu aí na semana passada. As fotos/vídeo são do mano Alexandre Toresan (daqui e daqui).

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Bashô + aí vários

O Fábio Bonillo, de também belo blog, sugestionou (via @fbonillo) que acrescentasse aqui versão outra do haikai de Bashô. Tínhamos nove; com mais uma ― dez. Tomei por boa a circularidade do número. Assim que, por muito que me incomode o “fragor”, agrego aqui a proposta. Gosto da contração em “d’água”. Sugere quase como que uma palavra estivesse a meter-se noutra, como a rã em sua incursão aquática. Com vocês, Bashô, em pena de Alberto Marsicano e Kimi Takenaka:


VELHO LAGO
MERGULHA A RÃ
FRAGOR D'ÁGUA


E fui-me atrás de mais. Dei neste site, que agrega quantidade de traduções significantemente maior que o PQP, embora não devamos sair aí agora a chorar a inutilidade deste espaço; valeu o esforço de coleta em livro, de páginas tão mais cheirosas que as da Internet (argumento esfarrapado). Dentre as muitíssimas propostas, destaque para esta próxima, de Lena Jesus Ponte, cuja ideia de utilizar parênteses é genial, embora não deixem de me soar estranhas as tais "galáxias":


Salta a rã no lago
((((( o tremor da água se espalha )))))
mergulha em galáxias.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Bashô e mais 9



Não que não cause aflição o desconhecimento de uma língua; ocorre que, por vezes, a ignorância torna-se oportuna e, tal como Borges do grego de Homero, podemos sacar do japonês sua carcaça restrita. Pode-se até mesmo chegar a pensar que não são as traduções por demais diversas, mas sim os originais de extremo engessados. Em japonês, é único o haikai de Bashô. Ao português, trai-se em nove, e torna-se vão o esforço de identificar a solução mais precisa.

Parece estar a dificuldade no segundo verso (se assim autoriza-nos chamar o japonês), fonte ali de todo o movimento. No verso primeiro, tem-se a localização, a descrição da circunstância, estando o terceiro responsável pela consequência, o resultado da ação. O verso do meio, explosivo, ágil, faz tropeçar quem o ousa transpor ao português. Deve estar o segredo no verbo “tobikômu”, explicado certa vez pelo poeta Paulo Leminski como um “saltar para dentro”, algo como “salta-entra”. Leminski, no entanto, não faz uso do verbo em sua proposta de tradução.


Falta à versão de Leminski um detalhe pequeno: o primeiro verso termina com a partícula “ya”, classificada, na tradição do haikai, como uma kireji (palavra de corte), cuja função é a de introduzir uma pausa, chamando atenção para o que foi dito. Além disso, essas partículas carregam um tom expressivo, emocional. A partir de traduções inglesas e espanholas, a escritora Olga Savary chegou à seguinte forma:


Embora o trecho “rã no ar” seja de visual atraente, vê-se mesmo que se perde o tal mergulho da rã. O saltar-entrar do animal perde força diante da imagem de um salto-voo. Parece ainda forte demais a partícula “ah”, de tom excessivamente saudosista. Paulo Franchetti e Elza Taeko Doi, reconhecendo a força de “ah” diante do original “ya”, propõem a utilização de um travessão. Atingem, assim, esta que talvez seja uma das mais criteriosas traduções do haikai de Bashô.


Pelo menos dois portugueses (foi de quem tomou conhecimento o PQP) posaram também de traidores de Bashô. Jorge de Sousa Braga, curiosamente, parece não tropeçar no segundo verso. Muda, isso sim, o terceiro, conferindo à peça uma imagem quase cíclica, com também pitadinha essa de reflexão.


Se é pra trair, que seja com arte. Jorge pensou assim e também deve-o ter feito Wenceslau de Moraes. Tentou transformar o terceto, forte na tradição japonesa, em uma quadra, tão usual pelos lados do Ocidente. Uma preciosidade, não há aí quem venha a negar, mas muito pra lá de sofisticada. Perdeu-se a simplicidade e limou-se Bashô até que nada restasse de estranhamento. Essa espécie de desconforto, vamos aqui convir, bem pode ser bem vinda.


Não podiam ficar os concretos de fora da corrida. Vieram corajosos e driblaram o desafio a lances de ousadia, com o que conseguiram bons resultados. A escrita japonesa, mais que simples escrita, tem em si própria certa arte. Ao propor soluções visuais, respeita-se o apelo estético do haikai. Mais que isso, conseguem muito que bem passar ao português o tal difícil saltar-entrar da rã — Haroldo de Campos, com um saltar e tombar; Décio Pignatari, com a repetição da linha “UMA RÔ, que, intercalada por um mergulho, parece de fato lançar-se ao alto e, em seguida, despencar pra dentro.


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Não me resistiu a vontade. Devo a Guilherme Salla, precursor do método denominado tradução pirata (aqui, se aventurou na poesia chinesa, e confiáveis são as fontes que afirmam estar o poeta agora em empreitada valente: verter à língua nossa O Corvo de Poe), a ousadia de me lançar neste desafio.

Chego, assim, a duas propostas de tradução. A primeira, por meio do tradutor Babel Fish, do Yahoo; a segunda realizou-se com auxílio do tradutor do Google. Rivais, parecem aí os dois gigantes se desentender até mesmo na poesia. O resultado são duas versões detalhistas e ousadas, que pretendem não só alimentar o apetite de curiosos, como também contribuir para os estudos de tradução do haikai e dar corda ao ambicioso e pioneiro projeto de tradução pirata de Guilherme Salla.


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Bibliografia
BASHÔ, Matsuo. O gosto solitário do orvalho. Lisboa: Assírio e Alvim, 1986.
FRANCHETTI, Paulo (org.). Haikai – Antologia e História. Campinas: Editora da Unicamp: 1990.
LEMINSKI, Paulo. La vie em close. São Paulo: Brasiliense, 2007[1991].
LEMINSKI, Paulo. Matsuó Bashô. São Paulo: Brasiliense, 1983.
SAVARY, Olga. Haikais de Bashô. São Paulo: Hucitec, 1989.

sábado, 15 de agosto de 2009

Curitiba, de Leminski — [6] Um templo e um tempo


Não consta tratar-se de passeio comum ao poeta em sua época, mas com uma manhã consegue-se empreendê-lo. Ruma-se inicialmente (isso se está-se a partir do centro de Curitiba) a sudoeste — aconselha-se tomar um ônibus — e, bem munido de aí algum mapa, logo se chega ao Instituto Neo-Pitagórico. Não tem, ao vivo, a magnitude suposta pela foto, falta essa que quase lhe põe como casa comum na rua calma do bairro Vila Isabel. Será difícil avistar o Templo das Sete Musas, escondido por um muro branco e sujo. Entre ele, no entanto, há ali um portãozinho de madeira cor-de-vinho, por sobre o qual, com uma espiadela, pode-se imaginar o altar onde, em um vaso, repousa uma porção de terra retirada do túmulo de Pitágoras.


Não será preciso sair a calcular quadrados de catetos para que se logo encontre o caminho de volta ao centro. Descido do ônibus, o ideal é que o relógio já tenha passado do meio-dia. Com isso...


Bem, com isso poder-se-á sentar com a maior das calmas em uma das mesas do movimentado Bife Sujo e tomar um dos dois caminhos:



Antigamente era bar, ficava em outra rua. Hoje, o restaurante guarda pouco do velho bar em que muito se agitava a noite cultural curitibana. Presumo nem mesmo haver mais o tal quibe frito com recheio de ovo cozido, embora não o tenha perguntado. No fundinho, talvez mesmo por só o nome, pode-se não sem esforço reconhecer uma atmosfera que por tantas vezes foi palco de Paulo Leminski.


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A foto antiga do templo é de Dico Kremer e está montada segundo ideia surgida aqui. A charge é do cartunista Solda e foi publicada no Pasquim na ocasião da morte de Leminski. Esta série de postagens deve muito à biografia Paulo Leminski – O bandido que sabia latim, de Toninho Vaz.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Curitiba, de Leminski — [5] Versão mais alegre, versão mais triste



Paulo Leminski tinha um fusca que não dirigia. Era verde e apelidou-se Verdura. Fácil pensar que fosse a canção homenagem ao companheiro, não fosse justamente o contrário. Surgiu primeiro foi a música, tendo vindo depois o carro a roubar-lhe o apelido.

de repente me lembro do verde
a cor verde
a mais verde que existe
a cor mais alegre
a cor mais triste
o verde que vestes
o verde que vestistes
o dia em que me viu
o dia que me vistes

de repente vendi meu filho
pruma família americana
eles têm carro
eles têm grana
eles têm casa
e a grama é bacana
só assim eles podem voltar
e pegar o sol em Copacabana
e pegar o sol em Copacabana...

Pouco aí depois, escreveu Leminski ao parceiro jornalista Toninho Vaz:



As palavras não foram outras quando a curitibana Blindagem, com a voz de Ivo Rodrigues [parceiro de Leminski na composição, tendo elaborado a harmonia], deu forma à música.


O ritmo acelerou-se e a pegada endureceu, tornando-se assim distante da versão “lânguida” (em opinião e palavra de Ivo) de Caetano. Acontece que, tendo sido gravada pelo baiano em 1981, ficou sem poder ser incluída no álbum que a banda curitibana lançava naquele ano: Blindagem. Só anos depois, com o relançamento em CD, o álbum pularia de 10 para 11 canções. A sexta, com agora chamada de luxo na capa, era Verdura.


O resultado são duas versões, bastante opostas: uma mais alegre, uma mais triste. A de Caetano é quase mesmo um poema, mas nem por isso mais próxima de Leminski. Com Blindagem, ganhou a música em atmosfera de época; é imagética, quase se enxerga Leminski a cantá-la aos amigos. Mas que deixemos aí cada um a julgar de próprio.


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Não encontro o crédito nem da imagem do fusca nem da foto da banda Blindagem, que se perderam por aí na internet. Pesquisei em Paulo Leminski – O bandido que sabia latim, de Toninho Vaz, e Curitibocas, de João Varella & Cecilia Arbolave.

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ATUALIZAÇÃO 12/08/2009 - Paulo Juk, baixista do Blindagem, deu aqui no PQP (com todo o respeito) e trouxe informação nova pro pedaço. A foto da banda foi sacada pelo Toninho Vaz, em 1986, quando estavam os garotos de morada no Rio de Janeiro. Aqui, os agradecimentos.

domingo, 9 de agosto de 2009

Curitiba, de Leminski — [4] O Pilarzinho


Comecei a fazer dúvida sobre a magnitude da tal cruz do Pilarzinho quando, confuso e extenuado pelas ruelas do amontanhado bairro ao norte de Curitiba, topei com caminhante em sentido contrário e me pus a perguntar-lhe se rumávamos de correto à estrutura de madeira. Estranhou, como se não enxergasse a importância, mas pagou-nos com um desconfiado ‘sim’.


Depois de posarem à foto sob a cruz do Pilarzinho (isso em ainda década de 70), é sabido que Leminski, Waly Salomão, Alice Ruiz e ainda Toninho Vaz (havia alguém de sacar a foto) puseram pé pra dentro de um ônibus e bateram pernas pro Bife Sujo, onde é certo que recorreram à cerveja.

Em 2009, escolheu-se rota outra (a cerveja reservou-se pra mais tarde): caminhou-se à direita e bem logo dobrou-se à esquerda. Mais ainda ali à frente, depois de quadras algumas, ia-se voltar a tornar à esquerda.


A rua achamo-la, mas então é que complicou-se a coisa. Não havia modo de topar com a casa. Olho na rua, olho na foto. Nada.

874. Estamos no quinhentos. Pra lá diminui, caminhemos por cá. Seiscentos. Não poucas eram as casas com dois números. Setecentos. Encerra-se a rua. A saída é recorrer a senhorinha essa de não menos que 70 anos que, com costas curvadas, abaixa-se pegado ao muro a tratar do jardim com uma pá.

‘Há tempos trocaram-se de cá a rua os números?’

‘Olha que bem já há um tempo.’

Como desconfiado, procuro certificar-me da legitimidade da fonte:

‘A senhora mora aqui há muito tempo?’

Sorri — são mais de cinquenta anos. Leva na fala um sotaque de imigrante, apesar da fluência. Pergunto se acaso sabia o ponto da casa onde morava Leminski e alcanço-lhe uma foto.


Segura-a com as duas mãos e a mira longo, deslizando enfim pra cima o olhar, como tentasse se acordar de algo... Seguimos, olhando cá e lá as casas em busca daquela única, que não veio.





A resposta da senhorinha? — ‘Esse nome não me é estranho...’.

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As fotos de Leminski são de Toninho Vaz, a quem novamente agradeço pela ajuda histórica de que me foi seu livro Paulo Leminski – O bandido que sabia latim. A ideia das fotos sobrepostas tirei-a daqui.