
Lars von Trier é um provocador. A começar pelo ‘von’ acrescido ao nome original Lars Trier, como a conferir nobreza germânica ao diretor dinamarquês. Em seu novo filme, a provocação tem início no título (Anticristo) e se estende por cenas profundamente violentas, que vão desde a perfuração de uma perna com uma broca até a mutilação genital da personagem feminina.
Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg interpretam um casal que, depois da morte do filho, muda-se para uma casa na floresta. A iniciativa é do marido, com a intenção de fazer com que sua esposa, visivelmente abalada, supere o trauma. A cena inicial, que mostra o deslocamento do filho até a janela (de onde saltará e morrerá) enquanto, no quarto do casal, os pais fazem sexo, é de beleza singular. Filmada em preto e branco e em ultra-slow-motion, a sequência tem por trilha sonora o trecho “Lascia ch'io pianga” da ópera “Rinaldo”, do compositor barroco Georg Friedrich Händel, e é artisticamente muito competente.
A esse pequeno prólogo segue o corpo do filme, dividido em três capítulos (no que o diretor retoma a estruturação de outros filmes, como Ondas do Destino [1996], Dogville [2003] e Manderlay [2005]). Enquanto o personagem de Dafoe tenta, como terapeuta, identificar e tratar o quadro depressivo de sua esposa, os conflitos se proliferam, culminando numa perseguição da mulher ao marido que incorpora momentos repugnantes de violência.
Embora pareça exagerada a postura do jornalista inglês que, no festival de Cannes deste ano, exigiu veementemente que Lars von Trier justificasse o filme (o que, como esperado, o diretor negou-se a fazer), é verdade que Anticristo, talvez pela gratuidade da violência ou pelo arrastar sofrido da trama, está longe das obras-primas do diretor, que, nos últimos treze anos, emplacou pérolas como Ondas do Destino [1996], Dançando no Escuro [2000], As Cinco Obstruções [2003], Dogville [2003], Manderlay [2005] e até o mais recente O Grande Chefe [2006], comédia que, embora bastante honesta, está um degrau abaixo dos demais. Isso sem contar Os Idiotas [1998], um de seus filmes mais conhecidos e que, se tem qualidade questionável, tem também inegável importância dentro do movimento dinamarquês Dogme 95, de projeção internacional.
Von Trier revela que realizou Anticristo como forma de combater um período recente de depressão. É de se discutir a validade de um filme levado a cabo com intenções individuais (lembremos da cena de Domicílo Conjugal [1970], de Truffaut, em que Christine alerta Antoine Doinel para o fato de que uma obra de arte, se usada para acerto de contas, deixa de ser arte), mas é mais uma vez exagerado enxergar o filme como prova de uma tendência misógina de Lars von Trier. Jorge Coli, em crítica recentemente publicada pelo caderno Mais da Folha de S. Paulo, contesta esses posicionamentos, ao fazer referência a episódios anteriores ao desenrolar da trama que são retomados pelo casal: “a mulher se retirara numa casa isolada para escrever uma tese sobre assassinatos de mulheres na história. O tema é feminista.” Mesmo que não fosse, seria por demais simplista supor que a postura de um personagem reflita a de seu criador.
Defender um ponto de vista com que não concorda é (ele mesmo já o revelou) um dos exercícios que mais agrada ao diretor dinamarquês. Nada mais adequado ao tom de ironia e de provocação que aplica a seus filmes. Antes de se voltar com ira para Von Trier, o que não se justificaria mesmo se se tratasse de uma peça detestável, o mais correto parece ser admitir Anticristo como um tropeço em uma filmografia sólida e diversa, que não se prende a modelos repetidos e arrisca penetrar os mais diferentes gêneros narrativos.
Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg interpretam um casal que, depois da morte do filho, muda-se para uma casa na floresta. A iniciativa é do marido, com a intenção de fazer com que sua esposa, visivelmente abalada, supere o trauma. A cena inicial, que mostra o deslocamento do filho até a janela (de onde saltará e morrerá) enquanto, no quarto do casal, os pais fazem sexo, é de beleza singular. Filmada em preto e branco e em ultra-slow-motion, a sequência tem por trilha sonora o trecho “Lascia ch'io pianga” da ópera “Rinaldo”, do compositor barroco Georg Friedrich Händel, e é artisticamente muito competente.
A esse pequeno prólogo segue o corpo do filme, dividido em três capítulos (no que o diretor retoma a estruturação de outros filmes, como Ondas do Destino [1996], Dogville [2003] e Manderlay [2005]). Enquanto o personagem de Dafoe tenta, como terapeuta, identificar e tratar o quadro depressivo de sua esposa, os conflitos se proliferam, culminando numa perseguição da mulher ao marido que incorpora momentos repugnantes de violência.
Embora pareça exagerada a postura do jornalista inglês que, no festival de Cannes deste ano, exigiu veementemente que Lars von Trier justificasse o filme (o que, como esperado, o diretor negou-se a fazer), é verdade que Anticristo, talvez pela gratuidade da violência ou pelo arrastar sofrido da trama, está longe das obras-primas do diretor, que, nos últimos treze anos, emplacou pérolas como Ondas do Destino [1996], Dançando no Escuro [2000], As Cinco Obstruções [2003], Dogville [2003], Manderlay [2005] e até o mais recente O Grande Chefe [2006], comédia que, embora bastante honesta, está um degrau abaixo dos demais. Isso sem contar Os Idiotas [1998], um de seus filmes mais conhecidos e que, se tem qualidade questionável, tem também inegável importância dentro do movimento dinamarquês Dogme 95, de projeção internacional.
Von Trier revela que realizou Anticristo como forma de combater um período recente de depressão. É de se discutir a validade de um filme levado a cabo com intenções individuais (lembremos da cena de Domicílo Conjugal [1970], de Truffaut, em que Christine alerta Antoine Doinel para o fato de que uma obra de arte, se usada para acerto de contas, deixa de ser arte), mas é mais uma vez exagerado enxergar o filme como prova de uma tendência misógina de Lars von Trier. Jorge Coli, em crítica recentemente publicada pelo caderno Mais da Folha de S. Paulo, contesta esses posicionamentos, ao fazer referência a episódios anteriores ao desenrolar da trama que são retomados pelo casal: “a mulher se retirara numa casa isolada para escrever uma tese sobre assassinatos de mulheres na história. O tema é feminista.” Mesmo que não fosse, seria por demais simplista supor que a postura de um personagem reflita a de seu criador.
Defender um ponto de vista com que não concorda é (ele mesmo já o revelou) um dos exercícios que mais agrada ao diretor dinamarquês. Nada mais adequado ao tom de ironia e de provocação que aplica a seus filmes. Antes de se voltar com ira para Von Trier, o que não se justificaria mesmo se se tratasse de uma peça detestável, o mais correto parece ser admitir Anticristo como um tropeço em uma filmografia sólida e diversa, que não se prende a modelos repetidos e arrisca penetrar os mais diferentes gêneros narrativos.








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