As sirenes foram de teatro (três toques antes do espetáculo), mas houve poesia na implosão da velha rodoviária de Campinas, muito pelo fato de seu início ter praticamente coincidido com seu fim. Em matéria de edificação, seria excesso de rigor negar o rótulo de instante àqueles dois segundos de um domingo. Houve quem tenha contemplado, às 11:02 de um fim de março, uma esquisita transformação: a rodoviária permaneceu sólida, é verdade, mas passou de construção a escombro, e liquefez-se na paisagem visual da cidade.
Não é inteiramente correto afirmar que o haikai é uma forma de poesia. Na tradição japonesa, o terceto é antes uma prática espiritual; a arte de capturar um instante fugaz e de fixá-lo em palavras de maneira simples e objetiva. Bashô flagrou o voar de um inseto (A libélula,/ Sem conseguir se agarrar/ A uma folha de capim.); Issa, um ladrão meio inofensivo (A lua da montanha/ Gentilmente ilumina/ O ladrão de flores)*. Os campineiros filtraram a tradição: abriu-se mão da simplicidade ― a implosão teve a exuberância das grandes destruições ―, mas manteve-se o instantâneo.
Foi fugaz o movimento que tombou a velha rodoviária. Dele, restaram apenas haikais particulares. Do sujeito que o acompanhou ao vivo, o som e a poeira; do que o assistiu pela TV, a multiplicidade de perspectivas; ao que tinha a rodoviária como vizinha, sobrou talvez um espelho quebrado; do que se mudou há tempos, não será surpreendente constatar que a memória reproduz, meio esfumaçado, um corre-corre apressado de pernas e de rodas.
Não era uma boa rodoviária, essa nossa velha. Se produziu poesia ao cair, foi por oposição à prosa relatorial que ostentava quando ativa, digna apenas de figurar numa hipotética brochura de capa marrom de uma prateleira empoeirada: “Antologia pessoal do provincianismo”.
* Traduções de Edson Kenji Iura
[Crônica originalmente publicada no nº 59 do jornal-laboratório Saiba+, que circula de 1 a 15 de abril de 2010.]
0 comentários:
Postar um comentário