
Bastaria que tomasse dois exemplares de seu volumoso Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, um em cada mão, e os erguesse de modo a aproximá-los da linha dos ombros, mas o Lobo Antunes da minha academia prefere exercitar-se colocando cinco quilos de cada lado de uma barra para supino. Descobri-o outra manhã e pouco me importa terem dito que chamasse Roberto, campineiro; minha diversão ― fugere atordoantem ― é reconhecer personalidades da cultura em meio ao burburinho metálico de pesos e barras.
Posso apostar que flagrei Sean Connery há duas semanas. Presumi que desejasse o anonimato e por isso não o abordei. Envelhecido, devo dizer, mas ainda com a discrição de um agente secreto, escapuliu arisco pela catraca e virou a cabeça como não me reconhecesse.
Há também um senhor Borges, que costumava flagrar com mais frequência na caminhada entre a barra fixa frontal e a mesa extensora posterior. Anda sumido, o que estranha, dado o apreço que demonstrava pelas paredes de superfície espelhada. Fico confortado ao lembrar-me de uma conversa que tivemos: dizia-se encantado pela sala de musculação, tamanhas ― postulou-as inclusive infinitas ― as possibilidades de se combinar os equipamentos em séries distintas de exercícios.
Se me vejo desapontado, é por ser pequena a probabilidade de cruzar com um Machado de Assis. Barba e bigode fartos caíram de moda, escasseando-lhe os sósias modernos. Uma verdadeira pena ― imagino que não teria resistência à utilização de luva nas mãos, posto que talvez lhe chateassem os exercícios para músculos oblíquos.

"Mens sana in corpore sano, o que vai fazer no fim de semana?"
[A qualquer desses senhores ― posso apostar ― Angela Carne e Osso (Helena Ignez) dirigiria a cantada despretensiosa. Quem não a conhece, procure-a em A mulher de todos (Sganzerla, 1969)]
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