Há algumas semanas, descobri a obra do fotógrafo português (meu xará!) Daniel de Melo. Fiquei encantado, e mais ainda depois de ler coisas que os entendidos em fotografia escreveram sobre ele. Como ando sem tempo para atualizar o PQP (prometo que volto logo!), deixo-lhes com um pequeno texto que o crítico Jorge Luiz Repeca escreveu sobre duas fotos do início da carreira de Daniel de Melo, que encontrei em tamanho um pouquinho maior com a ajuda do nosso sempre infalível Google Images.
Diferentes daqueles produzidos por amadores, cuja absoluta renúncia à seleção (pecado maior da fotografia digital) produz resultados em geral mal executados e pouco criativos, e também dos profissionais ― em que o rigor do ofício, ainda que eleve a qualidade técnica a patamares aceitáveis, acaba por reprimir qualquer utilização menos convencional das lentes ― os primeiros trabalhos fotográficos de Daniel de Melo impressionam não apenas pelo evidente teor de novidade, mas pela maneira com que conseguem desafiar os padrões estéticos da fotografia da época (início da década de 90) sem se rebaixar ao falatório estéril das vanguardas que, na maior parte das vezes, mais estão preocupadas com os manifestos que com a arte em si.
Não por acaso houve quem apontasse, quando da divulgação das duas fotografias, a obra primeira de Melo como dotada de uma ‘firmeza irreverente’, justamente por ser capaz de transitar entre os extremos conservador e experimental, abalando-os ao mesmo tempo em que os reafirma. Esse confronto de opostos está já marcado no pensar das fotografias (a obra madura de Melo virá de fato a reforçar essa primazia do planejamento), que, embora sejam retratos, foram produzidas na horizontal. A opção por fundos de cor sóbria ― interessante notar que até mesmo o atraente azul do céu é trabalhado pelo fotógrafo de modo a se tornar absolutamente sem-graça ― e a recusa à rotação da câmera, por sua vez, contrastam com a preferência deliberada pela máquina analógica descartável* e com o arrojo nos exercícios de enquadramento. São retratos, portanto, em que o retratado, enquadrado apenas parcialmente, perde em importância para a moldura fixa de um brutamontes que se pode supor desmiolado e alheio ao mundo da arte. É precisamente pelo desprendimento de inserir na própria imagem artística vestígios de anti-intectualidade que o fotógrafo redefine o status do artista na sociedade da época. Daniel de Melo não tem medo de rir de si mesmo. Não se leva a sério e, com isso, brinda-nos com peças inventivas e ― por que não? ― revolucionárias. Ou seriam conservadoras?
*A figura musculosa que toma sempre a sexta parte inferior direita das fotografias é um detalhe essencial para a mensagem que Daniel de Melo pretende transmitir. Seu visual kitsch (trata-se do lutador de wrestling americano Terry Gene Bollea, que tornou-se popular com o apelido de Hulk Hogan e que voltava à ativa em 1993 depois da aposentadoria que sucedera seu apogeu, no final da década anterior), que a câmera descartável faz ubíquo e irremediável, apenas aparentemente limita as possibilidades de intervenção do artista, pois que na verdade torna fértil o terreno do inter-discurso e da chamada montagem fotográfica.
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Diferentes daqueles produzidos por amadores, cuja absoluta renúncia à seleção (pecado maior da fotografia digital) produz resultados em geral mal executados e pouco criativos, e também dos profissionais ― em que o rigor do ofício, ainda que eleve a qualidade técnica a patamares aceitáveis, acaba por reprimir qualquer utilização menos convencional das lentes ― os primeiros trabalhos fotográficos de Daniel de Melo impressionam não apenas pelo evidente teor de novidade, mas pela maneira com que conseguem desafiar os padrões estéticos da fotografia da época (início da década de 90) sem se rebaixar ao falatório estéril das vanguardas que, na maior parte das vezes, mais estão preocupadas com os manifestos que com a arte em si.
Não por acaso houve quem apontasse, quando da divulgação das duas fotografias, a obra primeira de Melo como dotada de uma ‘firmeza irreverente’, justamente por ser capaz de transitar entre os extremos conservador e experimental, abalando-os ao mesmo tempo em que os reafirma. Esse confronto de opostos está já marcado no pensar das fotografias (a obra madura de Melo virá de fato a reforçar essa primazia do planejamento), que, embora sejam retratos, foram produzidas na horizontal. A opção por fundos de cor sóbria ― interessante notar que até mesmo o atraente azul do céu é trabalhado pelo fotógrafo de modo a se tornar absolutamente sem-graça ― e a recusa à rotação da câmera, por sua vez, contrastam com a preferência deliberada pela máquina analógica descartável* e com o arrojo nos exercícios de enquadramento. São retratos, portanto, em que o retratado, enquadrado apenas parcialmente, perde em importância para a moldura fixa de um brutamontes que se pode supor desmiolado e alheio ao mundo da arte. É precisamente pelo desprendimento de inserir na própria imagem artística vestígios de anti-intectualidade que o fotógrafo redefine o status do artista na sociedade da época. Daniel de Melo não tem medo de rir de si mesmo. Não se leva a sério e, com isso, brinda-nos com peças inventivas e ― por que não? ― revolucionárias. Ou seriam conservadoras?
*A figura musculosa que toma sempre a sexta parte inferior direita das fotografias é um detalhe essencial para a mensagem que Daniel de Melo pretende transmitir. Seu visual kitsch (trata-se do lutador de wrestling americano Terry Gene Bollea, que tornou-se popular com o apelido de Hulk Hogan e que voltava à ativa em 1993 depois da aposentadoria que sucedera seu apogeu, no final da década anterior), que a câmera descartável faz ubíquo e irremediável, apenas aparentemente limita as possibilidades de intervenção do artista, pois que na verdade torna fértil o terreno do inter-discurso e da chamada montagem fotográfica.


2 comentários:
hahaha! que legal foi ler essa postagem! mesmo mal tiradas, as fotos podem guardar momentos singulares ou coisas marcantes - como o curto período em que a mamãe teve cabelos curtos e a minha beleza, inabalável desde os primeiros anos.
juro que eu tava acreditando no comecinho.
a foto da cabeça do pedro é muito engraçada.
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