quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Personagem




Fora sozinho para melhor aproveitar a própria companhia, a qual tanto prezava. Logo, a surpresa: um conhecido. Pensamento rápido, a tentativa: fuga ― insucesso... Restou-lhe manter a conversa aos empurrões, com o pouco de assunto que sobrevivera ao abalo. Perturbado, perturbou-se. Para um antissocial assumido e orgulhoso, o encontro era sempre uma decepção. Fosse a algum lugar onde sabia ser preciso esperar à fila (algo aliás comum por ali), preparava-se: um livro, um afazer. Mal porém começava a desfrutar daquele impagável instante de solidão, chegava um conhecido (sempre ele) e punha abaixo o plano todo. Mas havia algo que lhe enchia o espírito: nesses encontros, partia sempre do outro a constatação de que “ué, você está sumido!” acrescida de um já sorridente “não tem saído?”. Observando sua conduta enfim reconhecida, o antissocial sentia-se até envaidecido e, carregando em si a glória de toda uma classe ― antissociais como ele e, por isso, pouco articulados ―, retorquia que “eu sou tranquilo” e emendava com um tanto ou mais risonho “estou de saída”.

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